Saturday, May 31, 2008

Coisas das Esfinges

VIVER NÃO É FÁCIL, mas andar pelas ruas desta minha amada cidade é muito mais difícil. Primeiro, porque os tufões que têm passado por aqui se empenharam particulamente em revolver o calçamento; depois, porque os automóveis têm aumentado de maneira considerável e, em matéria de trânsito, a tendência é caminharem os pedestres pelo meio da rua e trafegarem os automóveis pelas calçadas.
Mas, enfim, a cidade é tão bonita - sobretudo agora com as amendoeiras a perderem as folhas vermelhas e amarelas - que muita coisa se perdoa aos automóveis e aos tufões.
Acontece, porém, que os habitantes desta cidade (e nem todos são cariocas) se distinguem por uma invencível amabilidade, um desejo de comunicação difícil de explicar nestes tempos de pressa e indiferença. Quando menos se espera, alguém pára diante de nós, e pergnta com evidente satisfação pela charada que nos vai propor:
- A senhora não é Dona Fulana?
- Clari que sou.
- E eu? Lembra-se de mim? Sabe o meu nome?
Eis-nos em pleno deserto, diante da Esfinge. Começa-se a recordar: um cavalheiro assim, desta altura, com esta voz, de óculos, traje azul-marinho, aliança no dedo, gravata de pintinhas... (Mas todos os cavalheiros podem ter gravatas de pintinhas, traje azul-marinho, óculos, e há muitos cidadãos desta altura e até de aliança no dedo...)
- Pense um pouco, diz a Esfinge cruel.
Pensamos.
- Conheço-a desde o tempo de estudante, quando caminhava como quem pisa violetas... (Bem, deve ser um poeta: percorramos depressa o fichário dos poetas... Mas é impossível: não somos todos poetas no Brasil?)
A Esfinge diverte-se; aliás, com uma ponderação, uma cortesia, uma finura que assentam bem numa Esfinge.
- O senhor (murmura o suplente de Édipo), o senhor deve ser um famoso orador, um grande mestre, um deputado, um catedrático...
- Ah! como as mulheres esquecem... A senhora não se lembra de mim; e eu acompanho toda a sua vida, leio todos os seus livros, sei das suas viagens, das suas conferências (nem sempre compareço, é verdade, mas tenho notícia...) A senhora fixou apenas que sou uma criatura verbosa, retórica... Pois vou ajudá-la...
E então, como se subíssemos para um tapete mágico, principiamos a viajarn no tempo. Histórias e histórias se sucedem, jamais completamente verídicas, porém muito mais belas, por imaginárias e transcendentes. E nós por aqui e por ali, pisando violetas, colhendo estrelas, batendo asas, derramando neste mundo cornucópias de sonhos...
É preciso que um automóvel suba na calçada para descermos desse arrebatamento. E quase sempre a Esfinge parte sem nos dizer seu nome, deixando-nos apenas a sensação do irreal que somos, neste mundo de sonhos e memórias...


(Crônica retirada do livro 'Ilusões do Mundo', de Cecília Meireles)

Thursday, April 24, 2008

des tino de sistir -me, passar.




termino em mim uma alegria imensa que nunca passa.
sou desejo desse começo, sede de jamais terminar,
deixo aberto esse poema de fogo que reacendo no peito
quando é madrugada e desatina na sede de memória
uma casa branca que goza de tudo que nunca aconteceu.
pano de fundo,
plano de fulga da realidade em eterna espera de insistir:

lâmpada acesa perdida em sua luz.



.

Friday, March 21, 2008

Pros mesmos, enfático. Pra outros, 'outro'.

porquê não tornar um relacionamento mais amável,
uma amizade mais perpétua de gentileza, um ato de carinho declarado.

já nos é prometido que nalgum ponto há de haver um fim pro certo e o errado.
senão no instante da morte, em nada nos consta essa máxima de não-dever, não-viver, e não-amar.

nesse medo, que evita o desejo, aprofunda a solidão, que faz
do nosso hábito escravo e comandante dos mesmos trajetos,
artista sem paixão, sem novas cores, falho brilho no bocejo,

nessa tristeza, lentidão em viajar, movimentar, em viver, em sentir,
em toda agudeza precária persevera nossa humanidade.



de quanta aspereza de verdade e frieza de sentido,
ainda carece nossa vida pra que possamos dissuadir
com menos frieza de enchergar, nossa rigidez de amar?
.

Wednesday, March 19, 2008

Mussitação

caralho.

- folha em branco,
olho na folha,
alguma coisa escrita,
pouco a declarar,
engasgo da intuição.

me sinto um pouco mais leve, uf.

Saturday, March 15, 2008

Fragmento

Leporelo

É, o senhor me parece um homem difícil de converter. Bom, me diz aqui, qual é sua opnião sobre almas penadas?

Don Juan

Que o diabo as carregue.

Leporelo

(À parte) Essa descrença eu não posso aceitar. Não há nada mais vivo que uma alma penada. (Alto) A gente tem que acreditar em alguma coisa neste mundo - em que coisa o senho acredita?

Don Juan

Em que coisa eu acredito?

Leporelo

A pergunta é essa.

Don Juan

Eu acredito que dois e dois são quatro, Leporelo, e que quatro e quatro são oito.

Leporelo

Bela crença, essa aí! Então, pelo que vejo, sua religião é aritmética? É preciso reconhecer que a cabeça humana engendra tremendas besteiras. E que, em geral, quanto mais etudamos mais obtusos ficamos. Pois, comigo, que graças a Deus não estudei como o senhor, ninguém pode vangloriar-se de ter me ensinado nada. Mas, com meu diminuto bom senso e meu parco entendimento, vejo as coisas melhor do que todos os livros, e compreendo muito bem que este mundo que vemos não é um cogumelo que nasce sozinho no meio da noite. Eu gostaria muito de lhe perguntar quem fez essas árvores, essas rochas, essa terra, e esse céu que está lá em cima ou se todas essas coisas se fizeram sozinhas. O senhor, por exemplo, o senhor está aí, não está? O senhor se fez sozinho? Para o senhor ser feito não foi preciso seu pai engravidar sua mãe? Quando o senhor vê todas as invenções das quais se compõe a máquina do homem, o senho não se admira pela maneira como todas as peças se ajustam umas nas outras? Estes nervos, estes ossos, estas veias, estas artérias, estes... o pulmão, o coração, o fígado, e todos esses ingredientes que estão aqui e... Oh, danação, me interrompe um pouco, por favor. Ninguém pode discutir sem interrupção. O senhor fica calado de propósito - é de maldade que me deixa falar sozinho.

Don Juan

Espero que você termine o raciocínio.

Leporelo

Meu raciocínio é que, diga o senhor o que quiser, existe no homem uma coisa maravilhosa que nenhum sábio é capaz de explicar. Não é maravilhoso que eu tenha algum mistério na cabeça que me faz pensar cento e oitenta e quatro coisas diferentes no mesmo instante? E é capaz de fazer do meu corpo o que bem quer? Eu bato palmas, levanto os braços, ergo meus olhos para o céu, abaixo a cabeça, sapateio, vou pra direita, vou pra esquerda, pra frente, pra trás, giro... (Girando cai no chão).

Don Juan

Pronto, teu raciocínio acaba de quebrar a cara.

Leporelo

Desgraçado eu, por estar aqui tentando argumentar com o senhor. Creia em tudo ou em nada do que bem entender - a mim pouco me importa que o senhor vá para o inferno.

Don Juan

Mas, raciocinando tanto, acho que nos perdemos. Chama aquele homem lá embaixo e perguntar o caminho.

Leporelo

Olá! Olhe! O senhor aí! Tiozinho, vem cá! Amigo, uma palavrinha só!

Wednesday, February 20, 2008

Outro dia

tem um buraco nalgum canto do meu olho
que suga minha paz de espírito.
abro o olho - eu acordo -
e antes de abrir os olhos
já sinto um desassossego pousar.
acordar Noutro lugar
no Outro dia que não esse,
onde não sinta nem ausência
nem paz de espírito, isso me sugere plenitude.
Mas é minha imaginação fugaz e julgo equivocado,
- que constato dispersa no mundo -
nas sofreguidão das pessoas,
na nítidez das cores,
e no calor de certas horas,
que ainda me mantém de pé
e move minha esperança,
que enterram meus pés na lama
e fervem meu sossego.

Tuesday, February 05, 2008

Ouvir música

ouvir música não resolve
os problemas pessoais.

se assim fosse, o carnaval
estabeleceria determinado período
de graça entre as pessoas, eu não precisaria
comprar encordamento nas próximas dez
próximas encarnações, existiram mais fones de ouvido
que pessoas no mundo...

ouvir música,
no fone, no som,
no silêncio, na cor do dia,
- provar da sensação de estar -

não é como
estar com dinheiro sobrando,
ter a fórmula da coragem,
dizer a palavra certa pra expressar a quem amamos,
ou saber perdoar alguém no momento que nos magoa...

não é garantia de felicidade, solidão, estado de graça, compreensão...

ouvir música
é talvez uma 'garantia' que

nossa transição pelo mundo
não quesita em contratos de que
devemos ir além da efemeridade
que supomos da natureza que nos possui,
- nossa vida -

e que ela, A vida, se nos converte no minuto seguinte
com o carimbo insustentável do destino ou não,

é porque vibra latente dentro de nós,
e não no que nós vemos.

Thursday, January 31, 2008

Comparação

não adianta em que hora dizemos adeus,
ou volte logo,
logo estaremos sob a tutela da memória
que, embreagada de pudor,

obedece opiniosa ao julgo daquela data:
mesmo dia,
mesmo mês,
mesmo ano,
mesma coisa.

Saturday, December 29, 2007

Hoje, Agora, Agorinha.

Sem nem me dar conta
- do que estava adiante -

acabei percebendo
como queremos alguém
que irá nos tornar felizes,

nos trazer o aroma que
A vida exala.

o romance dos livros,
do cinema, da própria Vida

Compreendi o fato de que não
existem dois se não houver um e um

A felicidade a abundância
são sentimentos que chegam até mim
e através de mim

Enviados por tantos e tantos pelo espaço.
Se estou buscando harmonia,

ao mesmo me torno ela
e parte da harmonia existente no universo

e isso é so uma
parte

Sunday, December 09, 2007

Impulso

o tempo não parou um instante até aqui.viajei dias até esse momento,e mal consigo separar passado e futuro.
o presente me é mais fácil conceber,porque é tão misterioso,
infinito, e essencialmente mágico...
me sinto irmão-próximoatraído e conectado pela distância da liberdade
e do que não é suscetível de um pleno entendimento.
é meu sentimento no instante que evoca o domínio do meu tempo,
a hora na minha noitea rua no meu caminhoa janela na minha sombraa sombra na minha mão
.dou voltas por diferentes lugares com meus olhos fixos no tempo,
e o aglomerado desse momento,dá vida ao movimento seguinte.

Wednesday, December 05, 2007

01:55am

Inepto.


há momentos
onde seria bom não PENSAR.

ou não pensar no
que deveria PENSAR.

não PENSAR em algo que baste.

01:46am

tempos sem escrever.
e sem ler descentemente
um bom livro inteiro.


se eu fosse descrever
como termino meus dias atualmente,

eu diria,

que é o melhor momento
a melhor parte
a melhor hora
,
'o Dark Side of the Moon com o volume no talo
escutado pela primeira vez'
.

isso

por que não tenho aula,
o telefone não toca,
o carteiro não trabalha,
o povo da casa tá pelo terceiro sono,
os cachorros não tem fome - ou somente fazem menos zuada -,
a campainha não toca,
e a cozinha só tem o barulho do motor da geladeira.


na real não tô protestando contra nada citado.
sim, reavendo à minha necessidade humana de quietação espiritual.
que anda pra além-do-arco-íris da acepção da palavra 'paradoxal'.

mas isso não tem nada a ver.
se você pensar outro lado.


Pensar.

do Lat. pensare, freq. de pendere, suspender

v. int.,
formar ideias;
raciocinar, cogitar;
reflectir;
ter certo parecer;
julgar;
prever;
ter cuidado;
v. tr.,
imaginar;
julgar;
supor;
conjecturar;
calcular;
ter no espírito;
aplicar curativo a uma ferida;
medicar;
olhar pela limpeza, sustento e vestuário de uma criança;
dar penso ou ração ao gado;
s. m.,
pensamento;
opinião;
ponderação.

Monday, November 05, 2007

Mania de ler jornal.

A pouco estava lendo o jornal.
Coisa que faço pela manhã, quando
irresponsavelmente falto a aula, ou
raramente acordo cedo e em disposição
intelectual, nalgum feriado ou fim de semana.

Assim que abro o jornal, vou direto no caderno Vida & Arte,
nas programações, e notícias de cinema e música,
e no caderno Buchicho, na sessão
de horóscopos.

Confesso, me apetece um bocado
ler sobre meu signo, e de pessoas próximas,
inclusive nos dias que as idéias dali
não se enquadram muito no meu contexto diário.

Uma das razões pra isso - e, sabe Deus, pra quantas outras coisas -,
é que não consigo controlar minha euforia,
no momento em que posso reunir uma ruma de respostas e perguntas, e outras óticas,
e sinto a existência de um espaço, que me modifica, e que posso modificá-lo.

Quando leio uma coisa, ou escuto, ou assisto, os três, ou mesmo, sonho,
e algo se aloja em mim, me emociona, parece vir à tona
algum pedaço de memória, a lembrança antiga de alguma coisa que só posso
não compreender totalmente,
e se estabelece dentro me mim e no mundo, um tipo de diálogo interminável.

Thursday, October 25, 2007

Costumeiro

.




me fascina o 'realismo'.
o sujeito de discurso realista.
a atual realidade.

talvez por não ser, eu, um realista.
ignorante e tranquilo comigo, não compreendendo
o tempo exato de vida

que circundam as coisas findas.

não me habituei a acreditar em coisas findas.
não me perguntem porque, mas só penso que há
um constante começo aqui e agora

- e um acolá que eu nunca vejo, ou poderia.
talvez esse o que eu mais acredite,
justo por não ver -.

podemos definir o 'invisível'
como o real que não é visto

e a realidade com o que nos
habituamos a não ver



.

Thursday, October 11, 2007

Quase agora

Tô ouvindo os últimos 20segundos de 'Vida em outros Planetas' .
Faixa do Cd de um caba bom, do Rio Grande do Sul, chamado Rafael Sonic. O nome é meio peba, mas o som serve de álibe, e tem na TramaVirtual. Um folkzimpopdespretencioso,
daqueles que, quando você, numa véspera de feriado, ficou em casa chocando na internet em vez
de viver mil aventuras que seus filhos nunca iriam saber,
consegue até lembrar de épocas luminosas da infância. Massa!

Friday, September 28, 2007

Actual

.


se você olha por um tempo pro espelho
ver coisas que também veria
se não olhasse tanto pra ele?







.

Tuesday, September 18, 2007

Memórias

eu tenho uma gaveta tão cheia que nem sei mais o que tem dentro
tenho um violão sem cordas
eu tenho coragem e sei aonde eu vou
tenho fé, amigos, uma banda, e meu primeiro par de baquetas

eu tenho uma janela que dá pro jardim de trás da casa
um jardim que dá pro muro do vizinho
um muro que dá pro moinho no jardim-detrás do mesmo vizinho
e O moinho que dá pra um céu claríssimo na minha lembrança

tenho o caderno da minha sétima série todo rabiscado
de vários poemas esquisitos até pra mim
e desenhos daqueles tipo 'sr. palito'

- devidamente produzidos durante as aulas de química -

eu tenho sentimento que só a gota d´agua dentro do meu olhar
e é frequente persuardir-me com frases tipo 'os pensamentos transformam-se em coisas'
ou 'os pensamentos transformam coisas'

- quando repito-as, parece-me que cada uma quer dizer algo diferente da outra, do que eu disse, do que eu lembrei, do que não consigo recordar, e principalemente do que de fato não-aconteceu, ou existiu na minha memória -

.

Thursday, August 09, 2007

Um nada

falar do amor
sensação de comoção
mesmo do dissabor

é tão belo
e como soa raro o falar
vem pertinente à beleza
ou alguma beleza Maior que essa

é um gozo de acreditar, falar de amor
uma verdade sem distração
o estranho mais fabuloso perto da porta

a língua e tradução de um nada definitivo

pó que cria
um nó que desata
um nada que some e faz falta

Monday, August 06, 2007

Falou Fernando

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe,
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa

Tuesday, July 10, 2007

O ontem e a infância.

Escrever sobre ontem
normalmente não
é uma tarefa fácil pra mim.

Falar, porém, de um passado
que de fato não existiu,
é naturalmente algo que
faço com maior fluidez.

Essa tendência a composição
do meu próprio tempo, e realidade, é
um traço, deveras paradoxal,
que carrego desde a infância

(Brincar de 'Que ninguém pode ver a gente',
expressão recorrente que eu e meu irmão
usáva-mos num ato de viveza,

onde nos escondíamos dos nossos pais,
debaixo da mesa, atrás do sofá, da porta,
no breu do corredor,

e, mesmo sabendo que eles nos viam,
nós dois, pra um lado e outro da casa, sabíamos dar importância
a aquela configuração de talvez estar invisível,

e poder olhar o mundo da maneira que queríamos.
Era o que nos nutria de um misto de
raciocínio e agudeza de espírito, que

até hoje sinto como uma espécie de perfume-atemporal,
que pra sempre, seduz tudo que atravessa o que é rigor e criterioso em mim,
e conduz minha infância e paz de espírito a um lugar comum).